Com o coro de vozes que repetia “Cuidar e saber que nunca estamos sozinhas!”, concluiu-se o Primeiro Encontro do Grupo de Trabalho de Gênero da Rede COMPARTE, realizado na sede do IMCA (Instituto Mayor Campesino), em Buga, Colômbia, de 20 a 25 de outubro.
Durante cinco dias, 16 mulheres de diferentes centros sociais e organizações da América Latina e do País Basco compartilharam experiências, reflexões e aprendizados sobre equidade de gênero, cuidados e lideranças transformadoras nos diversos níveis de ação da Rede.
Para Arantza Cuevas, da Yomol A’tel (México), o encontro foi “literalmente construir Rede. Encontrar-me com mulheres que trabalham temas semelhantes. Construir rede entre mulheres nos revitaliza. É aí que nasce a força. Reconhecer que existem espaços tão bonitos em contextos difíceis, porque muitas vezes nos sentimos sozinhas nesse caminhar”.
Ela acrescentou: “As discussões que tivemos vão continuar, mas o mais valioso foi o encontro entre nós: compartilhar, conhecer a personalidade e a mística de cada uma. Foi importante que, dentro do próprio encontro, aquelas que geralmente cuidam tenham sido cuidadas. Levo comigo calma e a ideia de vincular as lideranças à saúde mental, à sobrecarga de trabalho e aos cuidados. Isso me faz pensar: como estamos apoiando, a partir dos centros sociais, as mulheres em suas lideranças?”.
Do Hogar de Cristo (Equador), Jessica Ochoa destacou que esse espaço “foi uma oportunidade para me renovar e me nutrir com as experiências de outros centros sociais. Muito aprendizado e a possibilidade de unir pensamentos, ideias e caminhos que temos nos diferentes espaços de trabalho. Senti-me valorizada por poder me abrir a um grupo de mulheres que enfrentam desafios semelhantes. Foi um encontro em que me senti valorizada, nutrida e fortalecida. Como mulheres, foi um espaço para nos abraçarmos e saber que não estamos sozinhas, que podemos realizar grandes coisas juntas”.
Ela acrescentou que o encontro “despertou muita esperança, ao ver que é possível fazer muito mais para fortalecer a abordagem de gênero em nossos centros sociais e na Rede”.

Durante o encontro, foram compartilhados depoimentos de mulheres diversas sobre seus processos de autonomia e liderança, bem como estratégias pró-equidade promovidas em diferentes centros sociais, organizações produtoras e universidades parceiras.
Também foram apresentados os avanços na elaboração do Marco Comum de Gênero da Rede, iniciado em março deste ano com a participação de oito centros sociais e uma organização produtora, além dos primeiros resultados da sistematização de experiências de ações de melhoria pró-equidade desenvolvidas entre 2023 e 2024.
Conceitos como corresponsabilidade, economia do cuidado, casa comum, interseccionalidade, violência de gênero, lideranças, alianças, apoio psicossocial, novas masculinidades, interdependência, interculturalidade, espiritualidade, feminismos e autonomia estiveram presentes — explícita ou implicitamente — nos espaços de diálogo, junto a perguntas que atravessam a vida cotidiana de todas as pessoas: a quem cuidamos? quem cuida de nós? como cuidamos? como se distribuem os cuidados?
Essa riqueza de experiências e conhecimentos permitiu identificar fatores-chave para a continuidade do trabalho de gênero nos três níveis da Rede, em coerência com o Traço 3, que afirma:“A partir de perspectivas feministas, promovem a equidade/igualdade de gênero e contribuem para o empoderamento das mulheres.”

Sem serem elementos únicos nem conclusivos, destacam-se alguns dos aportes surgidos:
Fatores a aprofundar
Transformações de dentro para fora: a equidade/igualdade deve “passar pela pele”. As equipes dos centros sociais precisam viver essas transformações internamente para acompanhar com coerência as organizações produtoras.
Reflexão sobre o cuidado: incorporar uma visão integral da corresponsabilidade e dos cuidados como base da vida cotidiana nos centros sociais.
Lideranças sustentáveis: promover lideranças corresponsáveis, empáticas e rotativas, evitando modelos heroicos ou de sacrifício.
Diálogo intergeracional: reconhecer que juventudes e infâncias têm voz, sonhos e contribuições próprias, e não vê-las apenas como “substituição geracional”.
Estratégias a fortalecer
Fortalecimento psicossocial e identitário: não se pode falar de gênero sem falar de saúde mental e cuidados integrais.
Alianças acadêmicas: vincular universidades e centros de estudo que trabalhem a abordagem do cuidado para fortalecer a reflexão e a ação da Rede nessa linha.
Novas masculinidades: avançar nessa reflexão por meio de alianças masculinas dentro e fora da Rede.
Intercâmbio de experiências: entre centros sociais, organizações produtoras e aliados externos.
Gestão de recursos: assumir as ações pela equidade de gênero como prioridade na gestão, e não como complemento das dimensões econômicas e produtivas.
Fortalezas reconhecidas
Liderança inspiradora de Sandra Delgado (ALBOAN) e Marly Zambrano (Suyusama), que dinamizaram o trabalho do Grupo de Gênero no marco dos planos estratégicos da COMPARTE, aprofundando o Traço 3.
Espiritualidade vivida (não necessariamente religiosa) como marco protetor e fonte de transformação nos centros sociais.
Existência de políticas institucionais e equipes dinamizadoras de gênero em vários centros membros da Rede.
Recursos financeiros geridos em Rede para impulsionar experiências de sensibilização, formação, comunicação, incidência e formulação de normas nos centros sociais e organizações produtoras.
Alianças estratégicas com organizações como Reas Euskadi, Universidade de Deusto e LAINES, que contribuíram com formação, sistematização e elaboração do Marco Comum de Gênero da COMPARTE.


Grupo de Trabalho de Gênero da Rede COMPARTE foi constituído em 2020, como parte dos acordos surgidos da Assembleia Geral de 2019, realizada no México. Desde então, o Grupo se reúne virtualmente a cada dois meses para dinamizar as estratégias e ações contempladas no Plano Estratégico da Rede vinculadas ao Traço 3.
Atualmente, participam do grupo representantes de Suyusama e IMCA (Colômbia), Hogar de Cristo (Equador), Yomol A’tel (México), SAIPE (Peru), ALBOAN (País Basco) e Solidaridad CVX (El Salvador).